A boa picaretagem dura mais...
VILLAGE PEOPLE 16/10/2004 Tom Brasil Nações Unidas
[Cobri esse show para uma revista musical, mas, considerando a peculiaridade do evento, resolvi republicar aqui, ainda que tardiamente]
Nostálgicos casais de meia-idade se multiplicavam na entrada do novo Tom Brasil, dividindo o espaço com alguns fãs tresloucados na casa dos 20 anos e famílias inteiras que compareciam impecavelmente trajadas como se fossem a um baile de debutantes. Dado o surrealismo do evento, a platéia era até normal demais. No palco, era aguardava a mais duradoura e bem bolada armação da música pop em várias décadas: o sexteto Village People. Ícone da era disco, o VP, entre idas e vindas, já chacoalha esqueletos há quase 30 anos e contabiliza nada menos que 65 milhões de discos vendidos.
O público já se refestelava com doses de uísque, salgadinhos e sucessos dos 70’s há duas horas quando, enfim, foram apresentados nos alto falantes o índio, o vaqueiro, o policial, o militar, o operário e o motoqueiro. A grande e bem-sucedida picaretagem do produtor francês Jacques Morali se materializava ali com muitas rugas e quilinhos a mais, mas com a mesma simpatia e cara-de-pau. A formação, acredite, é praticamente a mesma desde 1980. A única mudança foi a entrada de um tal Eric Anzalone no lugar de Glen Hughes, que morreu de câncer em 2001.
Quem esperava ver os seis senhores cantando e dançando com a música de uma banda de apoio, ficou a ver navios. Por outro lado, quem já dava como certo um playback deslavado, saiu no lucro: Ray Simpson, o “policial”, continua cantando e o resto do grupo se empenha em fazer backing vocals razoavelmente afinados.
A produção é modesta –um pano de fundo com uma pintura de Nova York e alguns clipes ocasionais nos telões –, dando a crer que o conjunto prefere investir no carisma e nos passinhos mal ensaiados. Quem viu o filme “Ou Tudo ou Nada”, maior bilheteria da história do cinema inglês, provavelmente lembrou daqueles sujeitos pouco atraentes que se atrapalhavam até nas coreografias mais simplórias. Com o Village People acontece quase a mesma coisa, inclusive no que diz respeito à reação do público feminino: gritos histéricos que parecem motivados mais pela farra que por admiração verdadeira.
Musicalmente, o sexteto não apresentou grandes supresas e seguiu quase à risca o clima de revival que tomava conta do lugar. Eles cantaram e sacolejaram por cima das bases de seus grandes hits “San Francisco”, “In Hollywood (Everybody is a Star)”, “In the Navy” e outros por cerca de uma hora e meia. A abertura trouxe uma arriscada versão de “We’re an American Band”, clássico do Grand Funk Railroad, e foi seguida por uma intrepretação chocha do smash hit “Macho Man”. Os caras trocaram de figurino algumas vezes, para o deleite das vovós, moçoilas e “entendidos” (para usar um termo tão retrô quanto a própria banda). O “operário” David Hodo não fez muita questão de esconder a bem cultivada pança, enquanto Simpson e o “índio” Felipe Rose tentavam disfarçar o efeito do tempo em suas respectivas carcaças.
Lá pela metade do set, o Village People ousou apresentar duas novas canções. “Trash Disco” é quase um medley com os grandes sucessos dos 70’s e a infeliz “Take My Breath Away” fez os caras parecem, mais do que nunca, uma boy band da terceira idade…
Era mais do que esperado e, no bis, eles atacaram com o smash hit “YMCA”, que fez até os octogenários presentes levantarem-se de suas cadeiras numa espécie de catarse disco. A segunda volta ao palco deu-se com outro sucesso das antigas – “Go West” –, encerrando a festa mais nostálgica do ano por aqui. De volta aos EUA, o Village People já embarca como abertura na 17a turnê de despedida da cantora Cher.
Nostalgia pouca é bobagem…
Escrito por Mr Eddy às 15h54
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